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Desclassificação, desorganização e descategorização
Tipo de trabalho:
Trabalho apresentado em evento
Dados descritivos:
EREBD, Universidade Federal do Paraná, Curitiba (2008)
Palavras-chave:
organização do conhecimento; sistemas de classificação; tags
Resumo:
transcrição da palestra | Moreno Barros | X EREBD Sul | UFPR | 2008
Full Text:
Desclassificação, desorganização e descategorização
Esse título é apenas uma afronta, porque na realidade é exatamente o oposto disso. As possibilidades de organização são muito maiores hoje e serão ainda mais no futuro. [Não é a toa que entre as maiores empresa do mundo estão os sites de busca]
Eu bolei um trabalho sobre os modelos de organização do conhecimento, ia falar de Heidegger, Wittgenstein, ia abafar no erebd. Mas depois que eu terminei não estava conseguindo entender nada. Então resolvi falar sobre coisas mais simples e úteis. E enquanto pensava sobre o que ia apresentar troquei alguns emails com os amigos bibliotecários [de onde eu roubei algumas falas, dos ilustres Fabiano Caruso, Alex Lennine, Gustavo Henn, Roosewelt Lins, Leandro Cianconi e Alessandra Gomes], e o tópico em questão era a desordem, desclassificação, descategorização.
Gustavo Henn me mandou um email que dizia:
[Gustavo] Tem uma frase que eu gosto muito, que é "toda ordem gera várias desordens" não sei de quem é, mas acho que tu podes usar em algum momento da tua apresentação. A nossa vantagem é que podemos escolher nossa própria ordem, sem que necessariamente a desordem resultante daí atrapalhe as ordens dos outros. Mas aí já tá ficando confuso..
[Moreno] Entendi o que quis dizer. É uma boa ilustração para a idéia de que no mundo físico "o dono da informação detêm o poder sobre a organização dessa informação".
O dono da informação detém poder sobre o controle dessa informação.
[Gustavo] Exato. Se eu escolho organizar a biblioteca por autor, ela estará desorganizada por título, por assunto, por cores, enfim. É isso aí, o dono da informação faz o que quer.
[Moreno] Esse é um exemplo para a restrição física, da arbitrariedade binária.
É um problema e vamos ver do que se trata.
INTRO - PROBLEMA
Nós somos muito bons em organizar coisas físicas, com uma experiência de 10 mil anos, e somos também excelentes em organizar idéias e conhecimento. Os princípios que nós utilizamos para ordenar, categorizar, classificar, para que possamos organizar as coisas, foram desenvolvidos para serem aplicados no mundo real.
A CDD, por exemplo, quando foi criada preocupada com a melhor utilização do espaço físico da biblioteca. Preocupada que a relação entre armazenamento e recuperação fosse dinâmica.
Dewey não teve escolha senão propor um modo de organização universal sobre a informação e o conhecimento. Um modelo que refletia o homem que era em seu tempo e sabendo que não agradaria a todos, mas tentava agradar o maior número de pessoas possível.
Impenetrabilidade
No mundo físico, você não pode ter duas coisas ocupando o mesmo espaço. É o primeiro princípio que guia a nossa organização física. Todas as coisas precisam se encaixar em algum lugar, e só podem ser encaixadas em um único lugar. O que torna a ordem excludente.
Limitações do mundo físico
Você pode ordenar as suas calcinhas no armário por cor, por dia da semana, por ocasião, mas de qualquer forma, elas só podem ocupar uma única dessas pilhas.
É uma infelicidade que você tenha que limitar as possibilidades de organização (dentro do seu pensamento) em razão da disponibilidade física.
O resultado é um condicionamento binário, onde você tem que decidir onde os objetos se encaixam, em um lugar ou outro.
No mundo físico não existe outra saída que não a arbitrariedade, porque você está lidando com objetos físicos, que se devem ser ordenados, então precisam se encaixar em algum lugar.
Arbitrariedade
Uma conseqüência política em ter que se lidar com a distribuição do espaço físico, é que alguém tem que tomar a decisão de colocar as coisas em seu devido lugar e essa decisão concede à pessoa o poder de autoridade.
Os editores precisam tomar a decisão do que deve entrar na página de um jornal, mas eles jamais podem tomar uma decisão que agrade a todos.
Você pode ter 500 excelentes artigos científicos, mas o editor tem que tomar a decisão correta de escolher somente aqueles que vão compor o volume que tem a limitação de, digamos, 70 páginas.
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Quando me convidaram pra dar a palestra no erebd, eu sugeri que eles escolhessem um tema pra eu apresentar, e como no final ficou a meu critério, eu decidi falar sobre os tópicos que o David Weinberger usa no livro "A nova desordem digital", que era o que estava me entretendo no momento.
David Weinberger – A nova desordem digital
O livro trata de todas as questões acerca dos modelos de organização do conhecimento e da informação, e em algum momento, profetiza que existe uma nova ordem, que é baseada na miscelânea, e que é uma modelo de organização mais abrangente quando comparada ao modelo de organização física.
O que ele explica sobre a miscelânea é o seguinte:
Nós gostamos de árvores, de organogramas, mas existe sempre uma sessão em que colocamos todas as coisas que não se encaixam em nenhuma outra categoria.
Ao longo dos anos nós acreditamos que o conhecimento termina quando começa a miscelânea. Visão Aristotélica de que se você não pode definir/categorizar uma coisa, então você não tem conhecimento sobre ela.
Em uma estrutura física, se a sessão correspondente à miscelânea começa a se tornar grande demais, então o seu esquema de organização é falho/imperfeito.
Mas agora, no mundo digital, estamos descobrindo que o conhecimento começa na miscelânea.
Miscelânea
O que o livro sugere é que, o que está acontecendo online, a sessão da miscelânea começa a dominar o quadro organizacional, e isso é uma coisa saudável e uma boa estratégia.
Agora, um ponto importante do livro, e que eu achei conveniente trazer pra cá, é que em algum momento da sua argumentação, Weinberger defende a idéia de que os princípios digitais de organização invalidam os princípios físicos de organização.
Princípios digitais de organização invalidam princípios físicos de organização
Quando tudo se torna digital, você acaba com a necessidade de se ter cada coisa em seu lugar. No mundo físico, na biblioteca física, duas pessoas não podem acessar e ler um único livro do acervo ao mesmo tempo. Mas se os livros estão digitalizados, você pode ter infinitas pessoas acessando e lendo o livro simultaneamente.
O modelo de organização do mundo físico é baseado na idéia de que cada coisa possui o seu lugar e um único lugar apenas. Se no mundo digital, essa coisa pode estar simultaneamente em vários lugares, então o modelo de organização físico já não se aplica. Quando tudo se torna digital, o modelo de organização passar a ser includente, e não excludente como era na organização física.
Aí eu fiquei pensando, poxa é verdade. Mas peraí. O cara fala que os princípios digitais de organização invalidam princípios físicos de organização. Será que é isso mesmo?
No mundo físico eu tenho um livro sobre “Adoração”, e eu como bibliotecário preciso definir em qual seção da biblioteca ele ficará: Espiritualidade ou Distúrbios Mentais, por exemplo.
Se eu tenho esse livro digitalizado, no sistema de organização digital da biblioteca eu posso designar uma cópia à seção de espiritualidade, e outra cópia à seção de distúrbios mentais. É uma solução simples e a custo zero. Não existe razão porque eu NÃO possa ou deva fazer, então eu simplesmente posso ter quantas réplicas forem necessárias e assim quebrar a lógica de organização física de que uma coisa só pode estar em um único lugar.
Mas então tem alguma coisa errada aí.
Um possível problema no livro do Weinberger é que ele se justifica sempre na dimensão espacial. A idéia de que os princípios digitais de organização invalidam princípios físicos de organização, a meu ver, não vale como uma teoria, porque não é só porque no mundo digital a replicação é muito mais simples, fácil e barata, que esse processo invalida os modos de organização do mundo físico.
Uma biblioteca pode ter zilhões de remissivas. É difícil, improvável, mas pode ter, e aí? Eu posso ter 5 livros iguais e colocá-los em diferentes estantes na biblioteca, diferentes seções de classificação. Que é exatamente a mesma coisa do que ter 5 réplicas de uma mesma foto no hd, dentro de pastas diferentes.
A partir daí eu tentei encontrar um argumento realmente bom que confirmasse que os princípios digitais invalidam os princípios físicos. Ou seja...
Em termos de organização, de princípios de organização, o que é feito em um acervo digital, que é impossível de ser feito em uma biblioteca ou acervo físico?
Alguém consegue responder?
Por enquanto, a resposta é não. Desconsiderando as limitações físicas e capacidades de replicação, até aonde a gente chegou, a organização no mundo digital é reflexo idêntico da organização no mundo físico.
Vamos fazer um exercício de imaginação então.
Chegando a conclusão de que a organização no mundo digital é idêntica á do mundo físico, eu fiquei muito tentado a fazer uma comparação.
Vamos pegar o Amazon, que é um dos serviços mais bem conceituados na internet, e predecessor de muitos conceitos que compõem aquilo que as pessoas chamam de web 2.0.
Se a organização digital e física são iguais, então porque o Amazon parece ser um modelo de organização mais eficiente que a biblioteca pública mais próxima da sua casa?
Não estou comparando uma livraria online com uma biblioteca física, estou comparando as propriedades de armazenamento e recuperação de objetos físicos, que é o que as duas entidades têm em comum.
O usuário entra na biblioteca com uma demanda. Ele recorre ao catálogo para encontrar o livro que deseja, ou apenas navega até encontrar aquilo que ele não sabe exatamente o que procura.
Amazon
A classificação é facetada, a navegação é por árvores. Funciona no Amazon exatamente como em uma biblioteca.
Não precisamos nos alongar na comparação, e nem quero que a comparação seja furada. São entidades completamente distintas e eu estou apenas focando um ponto específico.
Mas onde eu queria chegar com esse exemplo é que,
1.Não há nada que é feito no Amazon, em termos de organização, que não possa ser feito em uma biblioteca física, mesmo sem quaisquer recursos digitais.
2. Entretanto, a experiência como usuário em uma livraria ou biblioteca digital [sob determinado ponto de vista] é muito mais agradável do que em uma biblioteca física. E isto está relacionado com as limitações mencionadas anteriormente.
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Até aqui falamos sobre as limitações dos sistemas de organização do mundo físico, das propriedades que diferem a organização do mundo físico e do mundo digital, e que excluindo características específicas, como a organização no mundo físico é idêntica à organização no mundo digital.
Daí, pulamos para um exercício de imaginação para ilustrar como que, em função das limitações da organização do mundo físico, e das facilidades de organização no mundo digital, a “usabilidade” dos modelos de organização digitais parece ser mais agradável.
Em outras palavras, uma organização digital é muito menos limitada do que uma organização física.
Um novo modelo de organização
Existia um problema de ordem física, e uma solução de ordem digital. Vimos que os princípios de organização em um não invalidam os princípios no outro, mas que algumas das limitações do mundo físico, deixam de existir quando as coisas são digitalizadas.
Agora eu quero que vocês arquivem tudo o que foi falado até aqui. Que guardem dentro da miscelânea da cabeça de vocês.
Vamos ter em mente a idéia de que existe uma tendência global de digitalização, de que mais coisas estão sendo feitas, criadas e disponibilizadas no mundo digital e que de algum modo, os serviços digitais de armazenamento e recuperação são mais atraentes do que os físicos [não estou defendendo nada aqui, vamos apenas usar isso como uma premissa para a discussão. E vamos ver aonde podemos chegar].
Sabemos por exemplo que hoje a maioria das pessoas recorre ao Google, ao Google Scholar para ler um artigo científico, em vez de ir até a biblioteca. São exemplos polarizados, não estou querendo profetizar nada, nem insinuar que as bibliotecas ou bibliotecas serão extintos. Mas ilustram bem a suposição de que, bem ou mal, a organização digital possui vantagens sobre a organização física.
Agora, é o seguinte. Qual é realmente o grande lance da nova ordem digital? Por que ela é mais atraente?
E aqui ocorre uma ruptura. Porque pra esse tópico caminhar a gente tem que deixar de lado o gerenciamento de acervos como modelo central do negócio [do lance, da sacada]. Senão a gente vai perder a oportunidade de perceber simplesmente que o novo modelo de negócios/organização é centrado na experiência dos usuários, e não em novas dinâmicas para gestão do acesso, recuperação e disseminação da informação.
A mudança
O grande lance da nova ordem digital é que ela permite que cada pessoa construa o seu próprio sistema de organização.
Isso representa uma grande inovação porque como nós vimos no começo, [1] isso era praticamente inviável no mundo físico, e [2] no mundo digital, o dono da informação [o curador] não mais detém o poder sobre a organização dessa informação. Os usuários [controlam] possuem poder sobre a organização.
Os usuários [controlam] possuem poder sobre a organização.
Os donos da informação ainda podem desejar oferecer uma categorização padrão, um ponto de partida, mas essa não é mais a única, ou melhor, categorização disponível.
Os documentos digitais geralmente estão atrelados ao seu correspondente original físico, e possuem uma classificação/organização aplicada à biblioteca física. Mas a partir do momento em que está no mundo digital, inúmeras conexões podem ser feitas.
Independente de autoridade/arbitrariedade, as pessoas têm liberdade hoje - como não tinham antes no mundo físico - para conquistar os espaços que necessitam para usufruírem de seus próprios modelos organizacionais, e ainda, fazer isso sem a necessidade de intermediários.
Um exemplo de um modelo organizacional customizável, é que no mundo digital, você pode criar uma estante com os livros de seu interesse dentro do acervo digital. Mas você não pode chegar numa biblioteca física e reorganizar as estantes conforme seu interesse.
Lembra que eu falei que estava tentado a comparar o Amazon com uma biblioteca física? O que Amazon vem fazendo e as bibliotecas não fazem [logicamente dentro das suas limitações físico, virtuais e tecnológicas], é o estímulo à conversação, a possibilidade de saber o que outras pessoas andaram comprando, comentando, avaliando. Existe um fator de customização. De atendimento personalizado.
Existe uma questão técnica importante é que desta vez você não tem que aprender sobre o sistema. No mundo digital, o sistema aprende sobre você.
Na nova ordem digital nós podemos ter múltiplas possibilidades de organização. Algumas vezes nós vamos querer auxílio de experts, outras vezes a gente só quer o que for mais rápido, às vezes os mais populares, às vezes os mais raros, às vezes vamos querer navegar uma árvore no estilo de Aristóteles ou as estantes em CDD. Então, ceder o controle sobre a organização da informação não significa que a organização se torna irrelevante. Os bibliotecários nesse caso podem ser excelentes contribuidores sem ter que estar necessariamente no controle da coleção.
As autoridades são e sempre serão necessárias. Mas desta vez, em ambientes interativos, os gigantes podem ficar em evidência pela real demonstração de seu talento em comunicar e incentivar o aprendizado.
É preciso deixar claro que a biblioteconomia não se trata de gestão de pessoas. O objetivo pode ser pessoas e comunidades, mas os meios com que faz isso é através de serviços técnicos com objetos (informação e tecnologias - conteúdo e suportes), não pessoas.
Mas a internet em princípio não é sobre informação, e sim sobre conexões sociais. Agora nós temos pessoas que por razões profundamente sociais querem dividir o mundo de uma maneira que faça sentido para elas e conectar com outras pessoas que fazem o mesmo. Daqui a 5 anos, a maioria das pessoas terá milhares de fotos nos seus hds, e não vão se preocupar com taxonomias, e sim como as coisas se organizam de maneira significante em suas vidas. E as ferramentas que nós fornecemos pra que eles encontrem as coisas significantes é o que vai determinar bastante coisa no futuro.
Boas práticas da biblioteconomia centrada na experiência do usuário
(ver slides http://slideshare.net/moreno)
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