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A preservação do acesso lógico ao documento digital


AnexoTamanho
preservacaodoacessologico.pdf725.63 KB

Tipo de trabalho:

Trabalho de conclusao de curso

Dados descritivos:

Universidade de São Paulo, São Paulo, p.64 (2005)

Palavras-chave:

Preservação digital; Estratégias de preservação digital



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  • SUMÁRIO

    Folha de Aprovação
    Dedicatória
    Agradecimentos
    Resumo
    Abstract
    Lista de Ilustrações
    Lista de Quadros
    Lista de Tabelas
    1. Introdução
    1.1 Justificativa
    1.2 Objetivos
    1.2.1 Geral
    1.2.2 Específicos
    1.3 Hipóteses
    1.4 Metodologia
    1.5 Estruturação da monografia
    2. Interesse das organizações pelo conhecimento
    2.1 Informações x Conhecimento
    2.2 Gestão do conhecimento
    2.2.1 Histórico
    2.2.2 Conceitos e objetivos
    2.2.3 Tipos de conhecimento

    2.2.4 Conversão do conhecimento tácito em conhecimento
    explícito
    2.3 A criação do conhecimento organizacional
    3. A Intranet e os Portais Corporativos
    3.1 Gerações das Intranets
    3.2 Portais Corporativos ou a terceira geração de Intranets
    3.3 Conceitos de portais corporativos
    3.4 Benefícios do uso da Intranet e portais corporativos
    3.5 Portais corporativos divididos por níveis
    4. Fatores importantes para o sucesso na construção de um portal corporativo, serviços e funcionalidades
    4.1 Usabilidade
    4.1.1 A Usabilidade e a comunicabilidade
    4.1.2 A Interface homem-computador
    4.1.3 Testes de usabilidade e principais métodos de avaliação
    4.2 Acesso a informação
    4.2.1 Acesso a informação estruturada
    4.2.2 Acesso a informação não estruturada
    4.2.3 Categorização e taxonomia
    4.2.4 Tesauros como forma de controle do vocabulário de um portal
    4.2.5 Metadados
    4.2.6 Ferramenta de busca
    4.3 Personalização
    4.4 Outros fatores relacionados com a implantação de um portal corporativo
    5. Comunidades de prática como ferramenta para a gestão do conhecimento
    5.1. Conceitos
    5.2. Benefícios e estímulos à participação
    5.3. Desenvolvendo uma comunidade de prática
    5.4. O moderador
    5.5 Modelo para um comunidade de prática e as ferramentas de colaboração on -line
    5.6. Uso combinado das comunidades de prática e outras ferramentas do portal
    6. Considerações finais
    7. Referências

  • Desclassificação, desorganização e descategorização

    Esse título é apenas uma afronta, porque na realidade é exatamente o oposto disso. As possibilidades de organização são muito maiores hoje e serão ainda mais no futuro. [Não é a toa que entre as maiores empresa do mundo estão os sites de busca]

    Eu bolei um trabalho sobre os modelos de organização do conhecimento, ia falar de Heidegger, Wittgenstein, ia abafar no erebd. Mas depois que eu terminei não estava conseguindo entender nada. Então resolvi falar sobre coisas mais simples e úteis. E enquanto pensava sobre o que ia apresentar troquei alguns emails com os amigos bibliotecários [de onde eu roubei algumas falas, dos ilustres Fabiano Caruso, Alex Lennine, Gustavo Henn, Roosewelt Lins, Leandro Cianconi e Alessandra Gomes], e o tópico em questão era a desordem, desclassificação, descategorização.

    Gustavo Henn me mandou um email que dizia:

    [Gustavo] Tem uma frase que eu gosto muito, que é "toda ordem gera várias desordens" não sei de quem é, mas acho que tu podes usar em algum momento da tua apresentação. A nossa vantagem é que podemos escolher nossa própria ordem, sem que necessariamente a desordem resultante daí atrapalhe as ordens dos outros. Mas aí já tá ficando confuso..

    [Moreno] Entendi o que quis dizer. É uma boa ilustração para a idéia de que no mundo físico "o dono da informação detêm o poder sobre a organização dessa informação".

    O dono da informação detém poder sobre o controle dessa informação.

    [Gustavo] Exato. Se eu escolho organizar a biblioteca por autor, ela estará desorganizada por título, por assunto, por cores, enfim. É isso aí, o dono da informação faz o que quer.

    [Moreno] Esse é um exemplo para a restrição física, da arbitrariedade binária.

    É um problema e vamos ver do que se trata.

    INTRO - PROBLEMA

    Nós somos muito bons em organizar coisas físicas, com uma experiência de 10 mil anos, e somos também excelentes em organizar idéias e conhecimento. Os princípios que nós utilizamos para ordenar, categorizar, classificar, para que possamos organizar as coisas, foram desenvolvidos para serem aplicados no mundo real.

    A CDD, por exemplo, quando foi criada preocupada com a melhor utilização do espaço físico da biblioteca. Preocupada que a relação entre armazenamento e recuperação fosse dinâmica.

    Dewey não teve escolha senão propor um modo de organização universal sobre a informação e o conhecimento. Um modelo que refletia o homem que era em seu tempo e sabendo que não agradaria a todos, mas tentava agradar o maior número de pessoas possível.

    Impenetrabilidade

    No mundo físico, você não pode ter duas coisas ocupando o mesmo espaço. É o primeiro princípio que guia a nossa organização física. Todas as coisas precisam se encaixar em algum lugar, e só podem ser encaixadas em um único lugar. O que torna a ordem excludente.

    Limitações do mundo físico

    Você pode ordenar as suas calcinhas no armário por cor, por dia da semana, por ocasião, mas de qualquer forma, elas só podem ocupar uma única dessas pilhas.

    É uma infelicidade que você tenha que limitar as possibilidades de organização (dentro do seu pensamento) em razão da disponibilidade física.

    O resultado é um condicionamento binário, onde você tem que decidir onde os objetos se encaixam, em um lugar ou outro.

    No mundo físico não existe outra saída que não a arbitrariedade, porque você está lidando com objetos físicos, que se devem ser ordenados, então precisam se encaixar em algum lugar.

    Arbitrariedade

    Uma conseqüência política em ter que se lidar com a distribuição do espaço físico, é que alguém tem que tomar a decisão de colocar as coisas em seu devido lugar e essa decisão concede à pessoa o poder de autoridade.

    Os editores precisam tomar a decisão do que deve entrar na página de um jornal, mas eles jamais podem tomar uma decisão que agrade a todos.

    Você pode ter 500 excelentes artigos científicos, mas o editor tem que tomar a decisão correta de escolher somente aqueles que vão compor o volume que tem a limitação de, digamos, 70 páginas.

    --

    Quando me convidaram pra dar a palestra no erebd, eu sugeri que eles escolhessem um tema pra eu apresentar, e como no final ficou a meu critério, eu decidi falar sobre os tópicos que o David Weinberger usa no livro "A nova desordem digital", que era o que estava me entretendo no momento.

    David Weinberger – A nova desordem digital

    O livro trata de todas as questões acerca dos modelos de organização do conhecimento e da informação, e em algum momento, profetiza que existe uma nova ordem, que é baseada na miscelânea, e que é uma modelo de organização mais abrangente quando comparada ao modelo de organização física.

    O que ele explica sobre a miscelânea é o seguinte:

    Nós gostamos de árvores, de organogramas, mas existe sempre uma sessão em que colocamos todas as coisas que não se encaixam em nenhuma outra categoria.

    Ao longo dos anos nós acreditamos que o conhecimento termina quando começa a miscelânea. Visão Aristotélica de que se você não pode definir/categorizar uma coisa, então você não tem conhecimento sobre ela.

    Em uma estrutura física, se a sessão correspondente à miscelânea começa a se tornar grande demais, então o seu esquema de organização é falho/imperfeito.

    Mas agora, no mundo digital, estamos descobrindo que o conhecimento começa na miscelânea.

    Miscelânea

    O que o livro sugere é que, o que está acontecendo online, a sessão da miscelânea começa a dominar o quadro organizacional, e isso é uma coisa saudável e uma boa estratégia.

    Agora, um ponto importante do livro, e que eu achei conveniente trazer pra cá, é que em algum momento da sua argumentação, Weinberger defende a idéia de que os princípios digitais de organização invalidam os princípios físicos de organização.

    Princípios digitais de organização invalidam princípios físicos de organização

    Quando tudo se torna digital, você acaba com a necessidade de se ter cada coisa em seu lugar. No mundo físico, na biblioteca física, duas pessoas não podem acessar e ler um único livro do acervo ao mesmo tempo. Mas se os livros estão digitalizados, você pode ter infinitas pessoas acessando e lendo o livro simultaneamente.

    O modelo de organização do mundo físico é baseado na idéia de que cada coisa possui o seu lugar e um único lugar apenas. Se no mundo digital, essa coisa pode estar simultaneamente em vários lugares, então o modelo de organização físico já não se aplica. Quando tudo se torna digital, o modelo de organização passar a ser includente, e não excludente como era na organização física.

    Aí eu fiquei pensando, poxa é verdade. Mas peraí. O cara fala que os princípios digitais de organização invalidam princípios físicos de organização. Será que é isso mesmo?

    No mundo físico eu tenho um livro sobre “Adoração”, e eu como bibliotecário preciso definir em qual seção da biblioteca ele ficará: Espiritualidade ou Distúrbios Mentais, por exemplo.

    Se eu tenho esse livro digitalizado, no sistema de organização digital da biblioteca eu posso designar uma cópia à seção de espiritualidade, e outra cópia à seção de distúrbios mentais. É uma solução simples e a custo zero. Não existe razão porque eu NÃO possa ou deva fazer, então eu simplesmente posso ter quantas réplicas forem necessárias e assim quebrar a lógica de organização física de que uma coisa só pode estar em um único lugar.

    Mas então tem alguma coisa errada aí.

    Um possível problema no livro do Weinberger é que ele se justifica sempre na dimensão espacial. A idéia de que os princípios digitais de organização invalidam princípios físicos de organização, a meu ver, não vale como uma teoria, porque não é só porque no mundo digital a replicação é muito mais simples, fácil e barata, que esse processo invalida os modos de organização do mundo físico.

    Uma biblioteca pode ter zilhões de remissivas. É difícil, improvável, mas pode ter, e aí? Eu posso ter 5 livros iguais e colocá-los em diferentes estantes na biblioteca, diferentes seções de classificação. Que é exatamente a mesma coisa do que ter 5 réplicas de uma mesma foto no hd, dentro de pastas diferentes.

    A partir daí eu tentei encontrar um argumento realmente bom que confirmasse que os princípios digitais invalidam os princípios físicos. Ou seja...

    Em termos de organização, de princípios de organização, o que é feito em um acervo digital, que é impossível de ser feito em uma biblioteca ou acervo físico?

    Alguém consegue responder?

    Por enquanto, a resposta é não. Desconsiderando as limitações físicas e capacidades de replicação, até aonde a gente chegou, a organização no mundo digital é reflexo idêntico da organização no mundo físico.

    Vamos fazer um exercício de imaginação então.

    Chegando a conclusão de que a organização no mundo digital é idêntica á do mundo físico, eu fiquei muito tentado a fazer uma comparação.

    Vamos pegar o Amazon, que é um dos serviços mais bem conceituados na internet, e predecessor de muitos conceitos que compõem aquilo que as pessoas chamam de web 2.0.

    Se a organização digital e física são iguais, então porque o Amazon parece ser um modelo de organização mais eficiente que a biblioteca pública mais próxima da sua casa?

    Não estou comparando uma livraria online com uma biblioteca física, estou comparando as propriedades de armazenamento e recuperação de objetos físicos, que é o que as duas entidades têm em comum.

    O usuário entra na biblioteca com uma demanda. Ele recorre ao catálogo para encontrar o livro que deseja, ou apenas navega até encontrar aquilo que ele não sabe exatamente o que procura.

    Amazon

    A classificação é facetada, a navegação é por árvores. Funciona no Amazon exatamente como em uma biblioteca.

    Não precisamos nos alongar na comparação, e nem quero que a comparação seja furada. São entidades completamente distintas e eu estou apenas focando um ponto específico.

    Mas onde eu queria chegar com esse exemplo é que,

    1.Não há nada que é feito no Amazon, em termos de organização, que não possa ser feito em uma biblioteca física, mesmo sem quaisquer recursos digitais.

    2. Entretanto, a experiência como usuário em uma livraria ou biblioteca digital [sob determinado ponto de vista] é muito mais agradável do que em uma biblioteca física. E isto está relacionado com as limitações mencionadas anteriormente.

    --

    Até aqui falamos sobre as limitações dos sistemas de organização do mundo físico, das propriedades que diferem a organização do mundo físico e do mundo digital, e que excluindo características específicas, como a organização no mundo físico é idêntica à organização no mundo digital.

    Daí, pulamos para um exercício de imaginação para ilustrar como que, em função das limitações da organização do mundo físico, e das facilidades de organização no mundo digital, a “usabilidade” dos modelos de organização digitais parece ser mais agradável.

    Em outras palavras, uma organização digital é muito menos limitada do que uma organização física.

    Um novo modelo de organização

    Existia um problema de ordem física, e uma solução de ordem digital. Vimos que os princípios de organização em um não invalidam os princípios no outro, mas que algumas das limitações do mundo físico, deixam de existir quando as coisas são digitalizadas.

    Agora eu quero que vocês arquivem tudo o que foi falado até aqui. Que guardem dentro da miscelânea da cabeça de vocês.

    Vamos ter em mente a idéia de que existe uma tendência global de digitalização, de que mais coisas estão sendo feitas, criadas e disponibilizadas no mundo digital e que de algum modo, os serviços digitais de armazenamento e recuperação são mais atraentes do que os físicos [não estou defendendo nada aqui, vamos apenas usar isso como uma premissa para a discussão. E vamos ver aonde podemos chegar].

    Sabemos por exemplo que hoje a maioria das pessoas recorre ao Google, ao Google Scholar para ler um artigo científico, em vez de ir até a biblioteca. São exemplos polarizados, não estou querendo profetizar nada, nem insinuar que as bibliotecas ou bibliotecas serão extintos. Mas ilustram bem a suposição de que, bem ou mal, a organização digital possui vantagens sobre a organização física.

    Agora, é o seguinte. Qual é realmente o grande lance da nova ordem digital? Por que ela é mais atraente?

    E aqui ocorre uma ruptura. Porque pra esse tópico caminhar a gente tem que deixar de lado o gerenciamento de acervos como modelo central do negócio [do lance, da sacada]. Senão a gente vai perder a oportunidade de perceber simplesmente que o novo modelo de negócios/organização é centrado na experiência dos usuários, e não em novas dinâmicas para gestão do acesso, recuperação e disseminação da informação.

    A mudança

    O grande lance da nova ordem digital é que ela permite que cada pessoa construa o seu próprio sistema de organização.

    Isso representa uma grande inovação porque como nós vimos no começo, [1] isso era praticamente inviável no mundo físico, e [2] no mundo digital, o dono da informação [o curador] não mais detém o poder sobre a organização dessa informação. Os usuários [controlam] possuem poder sobre a organização.

    Os usuários [controlam] possuem poder sobre a organização.

    Os donos da informação ainda podem desejar oferecer uma categorização padrão, um ponto de partida, mas essa não é mais a única, ou melhor, categorização disponível.

    Os documentos digitais geralmente estão atrelados ao seu correspondente original físico, e possuem uma classificação/organização aplicada à biblioteca física. Mas a partir do momento em que está no mundo digital, inúmeras conexões podem ser feitas.

    Independente de autoridade/arbitrariedade, as pessoas têm liberdade hoje - como não tinham antes no mundo físico - para conquistar os espaços que necessitam para usufruírem de seus próprios modelos organizacionais, e ainda, fazer isso sem a necessidade de intermediários.

    Um exemplo de um modelo organizacional customizável, é que no mundo digital, você pode criar uma estante com os livros de seu interesse dentro do acervo digital. Mas você não pode chegar numa biblioteca física e reorganizar as estantes conforme seu interesse.

    Lembra que eu falei que estava tentado a comparar o Amazon com uma biblioteca física? O que Amazon vem fazendo e as bibliotecas não fazem [logicamente dentro das suas limitações físico, virtuais e tecnológicas], é o estímulo à conversação, a possibilidade de saber o que outras pessoas andaram comprando, comentando, avaliando. Existe um fator de customização. De atendimento personalizado.

    Existe uma questão técnica importante é que desta vez você não tem que aprender sobre o sistema. No mundo digital, o sistema aprende sobre você.

    Na nova ordem digital nós podemos ter múltiplas possibilidades de organização. Algumas vezes nós vamos querer auxílio de experts, outras vezes a gente só quer o que for mais rápido, às vezes os mais populares, às vezes os mais raros, às vezes vamos querer navegar uma árvore no estilo de Aristóteles ou as estantes em CDD. Então, ceder o controle sobre a organização da informação não significa que a organização se torna irrelevante. Os bibliotecários nesse caso podem ser excelentes contribuidores sem ter que estar necessariamente no controle da coleção.

    As autoridades são e sempre serão necessárias. Mas desta vez, em ambientes interativos, os gigantes podem ficar em evidência pela real demonstração de seu talento em comunicar e incentivar o aprendizado.

    É preciso deixar claro que a biblioteconomia não se trata de gestão de pessoas. O objetivo pode ser pessoas e comunidades, mas os meios com que faz isso é através de serviços técnicos com objetos (informação e tecnologias - conteúdo e suportes), não pessoas.

    Mas a internet em princípio não é sobre informação, e sim sobre conexões sociais. Agora nós temos pessoas que por razões profundamente sociais querem dividir o mundo de uma maneira que faça sentido para elas e conectar com outras pessoas que fazem o mesmo. Daqui a 5 anos, a maioria das pessoas terá milhares de fotos nos seus hds, e não vão se preocupar com taxonomias, e sim como as coisas se organizam de maneira significante em suas vidas. E as ferramentas que nós fornecemos pra que eles encontrem as coisas significantes é o que vai determinar bastante coisa no futuro.

    Boas práticas da biblioteconomia centrada na experiência do usuário
    (ver slides http://slideshare.net/moreno)

  • As pessoas sabem que eu lido com tecnologias aplicadas à biblioteconomia no senso mais prático, mas é importante não dissociar as questões conceituais que estão por trás do uso de tecnologias. O que eu venho defendendo sempre não é o fato de conhecer e saber utilizar determinadas ferramentas, e sim compreender a razão de utilizá-las.
    A literatura da nossa área possui um discurso bastante moderado. Ninguém quer vestir ideologias e defender que a biblioteconomia é capaz de prosperar sem o aporte tecnológico ou que se perderá, caso ignore tecnologias emergentes. E o emergente não está relacionado apenas com o novo, crescente, mas o modelo do Steven Johnson, onde não existe uma autoridade supra ordenadora.
    Antes que eu seja criticado pela postura excessivamente prafrentex, quero deixar claro que as tecnologias digitais não são panacéia. E que eu estou plenamente ciente de que muitos bibliotecários, especialmente no Brasil, estão muito mais preocupados em garantir verbas para a compra de livros do que ficar se preocupando com formas mais tecnológicas de servir seus usuários.
    Daqui pra frente apresentarei muitos questionamentos. Eu não possuo resposta para as perguntas que faço. E nem exijo respostas. Espero apenas que elas sirvam para fomentar a discussão e despertar para diferentes possibilidades e considerações sobre serviços de informação, bibliotecas e o ensino da biblioteconomia.
    ---
    Um belo domingo eu abro O Globo e encontro um banner gigante sobre a nova proposta editorial do jornal, que diz algo assim, “informação: se existisse em árvore, nós colheríamos; se existisse líquida, nós engarrafaríamos; se existe escrita, nós escrevemos; se existe online, nós atualizamos; se existe móvel, nós enviamos; se existe em vídeo, nós exibimos. A informação precisa estar onde você quiser”
    Obviamente se trata de uma frente mercadológica, com a intenção de elevar o produto não só à condição de jornal em papel, mas em conteúdo disponível via web, celulares, sons, videos, etc. Tiveram a grande sensibilidade de compreender que hoje a informação precisa estar onde o consumidor/usuário quiser. O grande leitor em potencial não é mais aquele que só tem acesso ao jornal através da banca de jornal. O leitor não vai mais até o jornal, é o jornal que deve ir até o leitor.
    O que conceitualmente é uma proposta interessante, que pode ser associada à idéia de ubiquidade, a capacidade de estar em vários lugares, ao mesmo tempo, o sinônimo de onipresente.
    Hoje é necessário fazer com que os serviços de informação também estejam em todos os lugares, atingindo as pessoas onde elas estiverem.
    Vejamos o exercício: quem utiliza orkut levanta a mão; quem possui telefone celular e troca sms? quem conversa no MSN? quem possui um aparelho mp3? (suponho aqui que em uma audiência repleta de jovens e jovens pesquisadores, a maioria das pessoas utilize esses serviços, para diferentes fins).
    Se grande parte de nós, ou a maioria de nós, ou todos nós utilizamos essas tecnologias de informação, por que a biblioteca e as escolas de biblioteconomia estão ignorando isso?
    Mesmo hoje, muitos anos depois de todos esses modelos citados estarem completamente presentes nas nossas vidas, ainda é preciso enfrentar resistência e convencer outras pessoas de que o orkut, msn ou blogs por exemplo não são coisas de adolescentes, de retardados, e não possuem qualidade a ponto de serem considerados modalidades e serviços de informação relevantes. Eu já venho falando sobre blogs há 5 anos e ainda hoje preciso explicar pras pessoas que apenas uma fatia dos blogs são mantidos por adolescentes, alguns deles idiotas e retardados, e que de qualquer forma, eles representam o que há de melhor em termos de tecnologias sociais: as pessoas garantiram um direito que elas nunca tiveram, o direito de ter uma voz na esfera pública.
    Quem é que pode julgar então o que é de qualidade ou não, se poucos anos atrás essas pessoas, a maioria das pessoas, ou todas as pessoas (as mesmas que utilizam orkut, msn, etc) não tinham voz na esfera pública? O que serve de parâmetro para qualidade e autoridade se as regras eram ditadas apenas pela grande mídia, pelos grandes editores, pelos educadores?
    Em uma passagem do O que é o virtual, Levy se pergunta, como educadores, em qual extensão nós tentamos e educamos em espaços em que nossos aprendizes existem... ou em que extensão nossos aprendizes vêm até nossos espaços?
    Em qual extensão os jovens pesquisadores vão eliminar a necessidade de um profissional bibliotecário, e em qual extensão eles desejarão servir a si mesmos, acessando a tecnologia da biblioteca diretamente?
    E aqui eu vou usar o exemplo da irmã do amigo Cauê. Ele me explicava que ela é leitora voraz, mas é incapaz de visitar uma biblioteca. Traçando um paralelo com o que Levy diz, o aprendiz está lá, ávido por informação, mas a biblioteca não vai até ele. Nem o leitor é capaz de reconhecer a biblioteca como um serviço que pode oferecer as informações que ele deseja.
    Se ela quer um livro, procura na internet ou compra na livraria. Para ela, enquanto jovem leitora e pesquisadora, faz muito sentido um sistema como o google, do que um sistema como o modelo tradicional de biblioteca. Ela serve a si mesmo, e está satisfeita com isso (não estou dizendo que o bibliotecário se torna desnecessário, obviamente).
    As pessoas interagem socialmente, profissionalmente, e quando a escola e a universidade perdem progressivamente o monopólio da criação e transmissão do conhecimento, os sistemas públicos de educação podem tomar para si a nova missão de orientar os percursos individuais no saber e de contribuir para o reconhecimento dos conjuntos de saberes pertencentes às pessoas (aqui incluso os saberes não-acadêmicos). Levy
    A informação precisa estar onde o usuário quiser.
    Em um panorama de ubiquidade tecnológica, onde aparatos tecnológicos estão em todos os lugares, precisamos nos perguntar em qual extensão a transformação do lado tecnológico nas bibliotecas está relacionada com as mudanças na biblioteconomia.
    E tratando-se do advento de tecnologias emergentes aplicadas à biblioteconomia, existe mesmo uma ruptura transformadora, ou fundamentalmente os nossos trabalhos continuarão os mesmos?
    O ponto principal aqui é compreender como a tecnologia pode representar uma oportunidade para melhorar a qualidade das operações e produtos da biblioteca.
    O meu orientador, professor Aldo Barreto sempre me alertou que este deslocamento requer um conjunto completo de conhecimento (o que o Fabiano Caruso também chama de fluência digital). Essa fluência é plena apenas quando o indivíduo se torna capaz de construir coisas relevantes com as ferramentas tecnológicas, em vez de apenas saber utilizá-las.
    De uma forma ou outra, mesmo entre os mais resistentes, é inevitável que os bibliotecários tenham que se adaptar às novas necessidades dos usuários que surgem em razão do uso de novas tecnologias. E reforço a palavra inevitável.
    Parte do problema é que o cenário de informação e o nosso comportamento – e o comportamento dos usuários - se modificou mais rápido do que nossos sistemas e serviços. As bibliotecas podem servir usuários online por exemplo,e até fazer o serviço bem, mas nossos modelos fundamentais são os das bibliotecas locais que servem a uma comunidade geograficamente restrita. A biblioteca de Alexandria era fantástica, e você certamente teria contato com coisas excelentes lá, mas o problema é que você tinha que ir até Alexandria para tanto.
    Conversando com a Déborah Medeiros sobre como a tecnologia pode representar uma oportunidade para melhorar a qualidade das operações e produtos da biblioteca, ela rebateu dizendo: desde que os bibliotecários comecem a se interessar, certo? E eu não tinha uma resposta automática para essa pergunta, mas pensando um pouco em alguns idéias que o Fabiano Caruso advoga, posso concluir que se não se interessarem não estarão contribuindo para um modelo de biblioteca (e biblioteconomia) baseada na participação, colaboração, inovação e distribuição.
    E para cutucar ainda mais a ferida, se um bibliotecário se pergunta por que deveria se preocupar, provavelmente ele não precisa mesmo .
    E eu fiquei pensando no professor Edson Nery e em uma frase do Arthur C. Clarke, que ele usa para professor, mas que poderia perfeitamente ser adaptado para bibliotecário: se um bibliotecário pode ser substituído por uma máquina, então ele deveria.
    Entendam o que eu quero dizer, o ponto principal aqui é compreender como a tecnologia pode representar uma oportunidade para melhorar a qualidade das operações e produtos da biblioteca em um cenário de ubiquidade tecnológica.
    ---
    Um exercício que deveria ser simples, mas que não é executado com tanta simplicidade na prática é colocar-se na posição do usuário.
    Como descobrir as coisas se a informação não chega até você?
    Lancaster quando fala sobre os tipos de necessidade de informação, explica que na situação de atualização, quando o usuário apenas desejar estar por dentro de um assunto específico, o serviço de informação pode tomar a iniciativa.
    Levando em consideração os quesitos técnicos, as bibliotecas deveriam elevar a funcionalidade do catálogo a um ambiente mais interativo e centrado no usuário.
    Se a biblioteca pode tomar a iniciativa, e fazer presença nos lugares onde os leitores potenciais estão (orkut, msn, celular, mp3, etc) então os bibliotecários podem conversar com pessoas que utilizam softwares sociais com frequência e entender como os dados da biblioteca podem “mashup” com estes softwares.
    Parece sempre uma heresia falar sobre uma biblioteca no orkut, ou o uso do orkut no ambiente da biblioteca. E eu estou falando sobre a biblioteca institucional no orkut, e não apenas uma comunidade não-oficial criada por um usuário ou bibliotecário da biblioteca. Parece óbvio, mas não é: se grande parte das pessoas, a maioria das pessoas, ou todas as pessoas hoje utilizam o orkut, por que a biblioteca está ignorando isso?
    Outra questão importante é que nenhuma biblioteca aparece no topo dos resultados do google. Isso acontece porque os bibliotecários não disponibilizam os dados, não mostram pras pessoas que os seus dados são bons. O correto seria eu pesquisar por um autor, título ou assunto, e receber na primeira página de resultados informações que eu preciso associados aos dados de uma biblioteca, eventualmente a biblioteca mais próxima da minha casa. Mas se eu faço uma busca por Thomas Mann por exemplo, é provável que os metadados do LibraryThing surjam antes do que os metadados da Library of Congress.
    Na situação de atualização, o serviço de informação pode tomar a iniciativa. Se eu estou no google, a biblioteca deveria estar onde eu estou, e não esperar que eu vá até o catálogo online.
    E eu quase entro em pânico quando ouço alguém, principalmente bibliotecário, falar mal do google, dos seus critérios de autoridade, de relevância. Não. O sistema é perfeito, a indexação é perfeita. Os spiders não tem nada a ver com isso. Se você não encontrou a informação que você procura no google, ou a sua busca foi mal formulada ou o serviço de informação que você procura é de qualidade ruim. Não soube disponibilizar corretamente seus dados para o harvesting do sistema. Isso acontece porque os bibliotecários não disponibilizam os dados, não mostram pras pessoas que os seus dados são bons.
    O que muito se diz, e é uma grande verdade, o que irá contar daqui para frente, não são os milhões de itens do acervo, mas as opções para acessar a informação demandada.
    Outra: estamos em 2008, e o site da biblioteca ainda é horroroso? O OPAC é um reflexo da saúde do sistema. Se a usabilidade, a funcionalidade é ruim, é uma lástima. E o pior é que é muito raro eu encontrar um sistema de biblioteca que faça sentido para mim. As bibliotecas não tiveram sensibilidade ainda para compreender que a informação precisa estar onde eu quiser. E se eu quero acessá-la pelo catálogo online, mas o catálogo é horrível, então lei de Mooers, dificilmente voltarei a utilizá-lo. Vou procurar refúgio no google. Nada mais simples e funcional do que uma tirinha branca e um botão busca, com os resultados que eu necessito.
    Enquanto bibliotecário, não pense que você sabe o que os usuários querem. Já perguntou pra eles? A mim, nunca... E eu tenho inúmeros exemplos de usuários frequentes de bibliotecas, leitores ávidos, que nunca participaram de qualquer estudo de usuário, desses que a gente aprende na escola de biblioteconomia, a quem nunca foi solicitada uma sugestão, uma sugestão de aquisição que seja. Nunca foram perguntados se eles estão satisfeitos com o serviço oferecido.
    Na defesa da dissertação do mestrado de Ana Virgínia (UFPB), ela explicava que era possível traçar um paralelo entre crianças que utilizam computadores e pessoas que frequentam a biblioteca. É uma regra de erro-acerto. A criança que nunca viu um computador na vida é capaz de aprender a operar o sistema vasculhando o que vê pela frente até acertar. O que é parecido com o usuário comum de biblioteca. CDD e CDU a ele não dizem nada, não fazem nenhum sentido. Pra ele é muito mais simples browsear pelas estantes até que, em erro e acerto, encontre o livro que procura, ou encontra um livro interessante que não era o que procurava inicialmente.
    Se isso fosse uma palestra de auto-ajuda, eu utilizaria as palavras do Bill Gates para dizer faça as pessoas pensarem que elas precisam de você.
    Um aspecto conceitual importante é que a informação está se tornando cada vez mais digital, mas as pessoas não. Elas precisarão de um lugar para estudo e reflexão. Um lugar para aprenderem a ser indivíduos, e não apenas parte de uma massa. O ambiente da biblioteca deveria ser capaz de promover a participação, colaboração, inovação e distribuição. O Clifford Stoll diz que é inconcebível que as crianças hoje sejam altamente capazes de enviar sms, criar blogs, ter 700 amigos no orkut, mas nunca foram jogar bola no campinho juntas. O novo modelo de biblioteca deveria levar todas essas questões em consideração.
    Resumindo tudo o que foi levantado até aqui, podemos pensar nas seguintes interrogações:
    A sua biblioteca está construindo alguma coisa desse tipo? Pensando sobre isso? O que você tem feito sobre? Como você faria, no mundo dos sonhos?
    Você acha que isso funcionaria? Por que e por que não? Quais são as dificuldades e barreiras? O que você faria diferente ou melhor?
    Se você é um usuário assíduo, você gostaria que fosse desse jeito? Você usaria? O que está faltando? O que você gostaria em vez de? Você utilizaria mais os recursos de informação da biblioteca se eles fossem de outra forma? Por que e por que não?
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    Eu tenho comigo o cartão da biblioteca do meu pai, com o carimbo referente à exata semana do meu nascimento em que ele pegou um livro emprestado. Com a tecnologia daquela época, eu nunca saberia, jamais saberei, apenas de curiosidade, que livro ele estava lendo no dia em que eu nasci. Mas com a tecnologia de hoje, seria possível.
    E mais do que isso, voltando ao tópico do erro-acerto, em um serviço de informação com base em interesses sociais, e é muito provável que eu e ele tenhamos interesses similares, ele seria um grande recomendador de leitura, assim como todos os meus outros 700 amigos no orkut. São pessoas que eu confio, mais do que o browseability na biblioteca organizada por Dewey (não que eu não goste de Dewey ou Otlet, ao contrário, acho CDD e CDU fantásticas, mas convenhamos, 020.91/927:01-97 não diz nada a mim enquanto usuário de biblioteca, nem a ninguém).
    Levy explica que quanto mais as informações se acumulam, circulam e proliferam, melhor são exploradas (ascensão do virtual) e mais cresce a variedade de objetos e lugares físicos com os quais estamos em contato (ascensão do atual). O que é uma idéia importante, pois hoje eu tenho muito mais recursos que o meu pai teve, tanto na experiência no uso de serviços de informação, como acesso à objetos de informação.
    O J.J. Abrams, o cara que criou Lost, diz que hoje é possível construir coisas relevantes com tecnologia, algo que as gerações anteriores não eram capazes. E com pouco (dinheiro) você consegue criar coisas boas. E eu falo sempre, hoje você NÃO tem um motivo para NÃO usar tecnologias emergentes. É web 2.0, sempre beta. Pode até não dar certo, mas não existe razão para não tentar. A tecnologia pode representar uma oportunidade para melhorar a qualidade das operações e produtos da biblioteca em um cenário de ubiquidade tecnológica.
    Biblioteca no orkut, por que? Porque os usuários podem saber mais sobre nós.
    Nunca, nunca, nunca esquecer que a missão da biblioteca e da biblioteconomia permanece a mesma e tecnologia digital não vai alterar a missão. Tecnologia digital não é panacéia.
    A biblioteconomia é afortunada pois tem tido inúmeras chances de repensar a biblioteca, o profissisonal que forma, o ensino de biblio.
    Como diz Clay Shirky, a questão é que vai acontecer uma reajuste gigante, a transição (ou ruptura) é inevitável, e já que nós estamos vendo antecipadamente e sabemos que irá acontecer, meu argumento é que nós podemos ficar bom nisso.